domingo, 23 de maio de 2010

Capítulo 2

Bem, como prometido, irei postar dois capítulos hoje. Se eu conseguir, é claro. O capítulo 2 segue abaixo. O terceiro virá a noite, caso não dê, amanhã antes das 17h.
Aliás, o 3ª é mais comprido então vou dividir ele em duas partes.




CAPÍTULO 2


O que dizer da visita do senhor Jeffrey Westwendorff?
Chata.
O Sr. Jeffrey era um cara legal, se comparado as outras pessoas com mais de 40 anos. Fora isso, não. Deixei-o falar a maior parte do tempo, já que eu não estava prestando atenção em nada mesmo. Minha mente vagava lentamente em coisas sem menor importância. Das poucas coisas que absorvi, a mais interessante era ele não me contar o motivo de estar em uma cidade tão pequena, vindo de um lugar como Roma – seu último lar. Tentei insistir no porquê da mudança, porém o Sr. Westwendorff apenas disse que era a respeito de negócios.
Em fatos, o interessante estava ali. Ele disse que eram negócios, mas não disse que tipo de negócio. Isso realmente instiga uma garota que precisa de qualquer coisa para se distrair. Por algum motivo tolo, eu me lembrei de Drácula. Apesar de ser tolice pensar que aquele cara irlandês fosse um vampiro. Pior ainda é pensar em vampiros quando se vive em um mundo real.




Termine de ler em "Mais informações"




Depois que ele saiu, eu simplesmente esqueci que tive visitas. Incrível como eu consegui ficar acordada tanto tempo. E ele só foi embora quando a Vic entrou para perguntar se já poderia fazer o jantar. Quase torci para que fosse sopa de alho.
Quando olhei o relógio depois de acenar e fechar a porta ainda era 20h. Talvez Markus pudesse me aceitar em sua casa para conversar um pouco antes de dormir. Então resolvi ligar, rezando para que ele não tivesse outra companhia que me substituísse.
- Claro que você pode vir, No. – Markus riu ao me ouvir praticamente implorando - Eu ia adorar você passando a noite aqui em casa.
- Ah. Certo, então. Só vou ajeitar algumas coisas e estarei aí em meia-hora.
Desliguei e fui para a sala de jantar. Para minha surpresa a mesa não estava posta, só pude supor que Victorine tinha deixado tudo na cozinha mesmo. Minha suposição se provou correta quando entrei na cozinha e a vi sentada a mesa tomando uma caneca do que parecia café.
Apenas sorri e sentei também. Vic empurrou em minha direção um prato de sopa que estava servido e disse:
- Imaginei que quisesse algo mais leve, já que tenho certeza que vai dirigir até a cidade.
- É. Irei. - ri e comecei a tomar a sopa. Que, alias, era de tomate.
- Cuidado na estrada. Tenho que trabalhar arrumando umas papeladas de contratos antigos de sua mãe, mas qualquer coisa pode ligar que vou buscá-la. E tente não precisar de mim.
Foi mais um discurso estranho no dia que tentei não ligar. Ela terminou o café e levantou, sem dizer mais nada, eu já tinha terminado a sopa e levantei junto. Subi para meu quarto e tomei um rápido banho. Peguei uma bolsa e joguei dentro minha carteira que ainda tinhas algumas notas dentro. Antes de sair, peguei um vestido qualquer, e fui o arrastando escada abaixo.
Meu celular vibrou no bolso assim que pus o pé para fora de casa. Era uma mensagem do Markus.          
Noite dos clássicos! Escolha o filme.
Envie 1 se quiser rever Madrugada dos Mortos.
Envie 2 se quiser rever Terror em Silent Hill.
Eu ri da sua interpretação de filmes “clássicos”. Não que esses dois não fossem grandes clássicos na minha interpretação, mas acima de tudo eram grandes filmes de terror. Ainda andando enviei um 2 como resposta. Demônios são mais clássicos que zumbis.
Eu não tinha colocado meu carro na garagem e por isso ele estava perto da casa. Joguei a bolsa no banco do passageiro e o celular em cima do painel.
O caminho não era longo, porém o percurso feito a noite era intimidador. Para eu não precisar pensar nisso, liguei o som do carro e distrai minha mente cantando junto o rock clássico do Kansas. A única luz na estrada era o farol baixo que eu mantinha. Quase todas as folhas já haviam caído de seus galhos e o caminho parecia um cenário triste de um filme que terror que está para começar.
Quando a cidade estava a menos de dois quilômetros de distância, dei atenção a uma pequena luz vermelha que piscou insistentemente por alguns minutos antes de eu perceber-la no painel do carro. Meu rosto se abriu em pavor ao reconhecer o sinal. O carro resistiu bravamente por mais alguns metros, suficiente apenas para eu o tirar do meio da estrada e parou. Esqueci de reabastecer.
- Não carrinho, não agora, não agora. – falei alto, batendo minha testa algumas vezes no volante até começar a doer. Foi quando troquei a testa no volante pela parte de trás no encosto do banco – ESQUECI DE ABASTECER! ESQUECI, SIMPLESMENTE, DE ABASTECER!
Quando eu já estava cansando de gritar, sai do carro, peguei a bolsa e desliguei o celular, enfiando-o no bolso novamente. A noite estava fria e eu tinha levado somente cachecol que transformei em um xale. Não pude fazer mais nada então tranquei as portas e liguei o alarme, mesmo sabendo que ninguém poderia fazer nada com um carro sem combustível.
Bati o pé, chutei folhas para o ar, pulei girando, dei mais gritos e fiz birra como uma criança pequena. Depois de mais alguns minutos chutei o pneu do carro, alisei meu vestido e comecei a andar firmemente. Eu não tinha medo de escuro ou de ficar sozinha, mas eu bem poderia tropeçar em um galho cair e ter uma contusão ou um corte profundo. Isso seria um problema.
Continuei a andar, pretendia caminhar até a primeira casa de conhecido que estivesse no caminho, pedir para fazer uma ligação e informar meu estado para Markus, ele jamais negaria um favor como me buscar e socorrer meu carro. Caminhei de cabeça baixa e braços cruzados. Sem notar nada a não serem as folhas avermelhadas no chão. Até minha mente reagir quando a floresta começou a dar origem às casas.
O vento do outono bateu frio levantando meu vestido e arrepiando meu cabelo. Passei a mão no corpo rapidamente tentando me recompor. Mas ele foi insistente e apenas segurei a saia para que não levantasse novamente. As casas estavam de janelas e portas fechadas e ninguém que eu conhecesse morava tão perto da floresta assim. Caminhei mais dois quarteirões e dobrei em uma esquina, lembrando que May Belle era a que morava mais perto, três quadras de distância.
Quando parei na frente da casa percebi que, além de fechada, todas as luzes estavam apagadas. Eu não gostaria de incomodar e não tinha nada a fazer senão caminhar até o Markus. O problema era que o caminho feito a pé se tornava extremamente cansativo. Respirei fundo e comecei a andar de novo bem mais mal-humorada.
Repeti o gesto de andar de cabeça baixa e encolhida o máximo que eu podia. Fiquei distraída com meus pés e nem consegui perceber porque me assustei. Só percebi que meu coração acelerou imediatamente, olhei para trás no exato momento que um vulto sumiu entre umas paredes. Rodei para frente tão rápido que meu cabelo bateu violentamente em meu rosto.
Apressei o passo o mais rápido que pude, sem correr. Estava numa cidade pequena, crimes eram raros, mas nem por isso não existiam. Eu pouco andava pela cidade, quase sempre estava de carro. Isso não significa nada importante, mas digamos que o carro me deixava com vantagem na velocidade.
Virei em uma esquina depois de duas ruas, pois era o caminho mais perto, o que não o tornou mais seguro. Um dos postes estava com a luz apagada, e devido a considerável distancia entre eles, um grande espaço se mostrava escuro. Olhei para trás antes continuar a andar.
O som de uma lata de lixo caindo ecoou perto, fazendo-me parar de pensar e agir mais rápido. Olhei o relógio e vi que já havia passado 35 minutos desde que sai de casa. O vulto reapareceu do outro lado da rua, entre duas casas. Desta vez com forma mais definida, sem duvida era um homem e com um grande pedaço de alguma coisa na mão.
Fingir não ver e nem ouvir, apenas continuei andando.
Respirando e olhando somente para frente.
Mais uma vez o som de algo caindo se fez ouvir, seguido por um grito sufocado de uma mulher e rapidamente interrompido. Pensei nos piores palavrões que lembrei sem parar de andar. Vi mais uma esquina e não pensei duas vezes em dobrar. Só que dessa vez, correndo.
Corri sem parar em nenhum momento até reconhecer a rua como a de Markus. Corri mais devagar até estar andando de novo. Uma senhora apareceu na janela de sua casa, levemente assustada com a minha presença na rua àquela hora.
- Boa noite, mocinha. Não está frio para ficar fora de casa com tão pouca proteção? – ela perguntou. Olhando mais atenta, lembrei que já havia visto a antes.
- Boa noite, Frau Schüür. Sei que está. Só vim para visitar um amigo aqui perto. Meu carro “quebrou” – como doeu dizer isso – e tive que fazer uma parte do caminho a pé.
Acenei, continuei em linha reta e, atrás de mim, Frau Schüür fechou sua janela. Minha voz pareceu muito controlada quando falei. Sempre fui muito fria a respeito de tudo e, graças isso, não mostrava fragilidade em casos como o que havia acontecido. Mesmo que por dentro meu corpo estivesse profundamente abalado, era sentimento passageiro e sem traumas.
Parei em frente a casa e toquei a campainha por menos de 1 segundo. Markus abriu distraído com algo no celular e quase pulou para trás ao me ver.
- Noelle. Nossa, que susto me deu. Você nunca tocou a campainha tão rápida. Entre.
Não disse nada ao entrar. Sentei na escada e esperei ele fechar a porta e perceber meu estado. Mas como homens nunca percebem nada, Markus só falou algo quando tirei meus sapatos e fiquei descalça sob o tapete macio.
- O que aconteceu com você? – sorri ao ver sua cabeça inclinar para o lado.
- Eu não sei. - respondi sinceramente e contei tudo à ele.
- Quer dizer que a motorista atenta esqueceu-se de reabastecer? – ele riu de mim.
Seu riso não durou muito, ele pareceu realmente preocupado quando falei do grito. Na verdade, a medida que eu contava ele parecia mais estranho e em nenhum momento enquanto eu falava ele tirou os olhos do celular. Assim que parei de falar ele disse:
- Estava tentando falar com May Belle essa noite. Ninguém atende ao telefone na casa, e os pais dela estão viajando. Se ela não está em casa e o celular está desligado...
- Não sei Markus. Foi estranho, mas quer dizer, eu nunca ando pela cidade a noite. Posso só estar assustada.
- Certo. Vamos para o quarto, você precisa se ajeitar. Parece que você foi atacada.
Levantei e o segui escada acima. Ele deixou-me sozinha por um instante no quarto para trocar meu vestido por um dos seus moletons. Depois sentamos juntos na cama e ele pôs o DVD.
- Pensei que tivesse escolhido Terror em Silent Hill hoje. – eu disse assim que reconheci o início.
- Melhor zumbis. São menos assustadores. Os dois filmes têm finais complicados mesmo.
- Não concordo sabe. Quer dizer, em Madrugada dos Mortos é fácil de entender.
- Porque zumbis não pensam. O cérebro só transmite uma informação a todo instante, que é...
- Comer, comer, comer.
- Isso.
Rimos juntos com minha frase muito bem elaborada. Markus olhou para mim um instante e o sorriso sumiu do seu rosto. Eu imediatamente fiquei séria também. Algo me dizia que Markus estava pensando em May Belle. Ela estudava comigo e conheceu Markus um dia quando estávamos caminhando juntos. Eles se deram bem e lembrei que May Belle adorava ler clássicos. Como Drácula.
- Você estava saindo com ela?
- Não exatamente, mas ficamos algumas vezes.
- Sei - ergui minhas sobrancelhas e voltei a olhar para a Tv – Amanhã nós ligamos ela deve ter ido para a casa de uma amiga.
- Certo. - ele sussurrou.
O filme começou a ficar interessante, ou seja, todo mundo já era zumbi. Imaginei como seria ficar presa com algumas pessoas em um Shopping com milhares de zumbis tentando entrar e nós tentando sair. Markus passou o braço em volta de meus ombros e eu me apoiei sobre seu peito. A última coisa que vi antes de meus olhos fecharem foi o rosto do bebê zumbi recém-nascido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário